Os gastos públicos no Brasil devem encerrar 2025 em R$ 5,2 trilhões, valor superior à arrecadação estimada para o período. O montante equivale ao Produto Interno Bruto (PIB) de economias de grande porte, como a Arábia Saudita. A projeção é da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), com base em dados da plataforma Gasto Brasil, que acompanha as despesas primárias da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios.
De acordo com o levantamento, as despesas avançam de forma acelerada e cada vez mais antecipada. Em 2023, o patamar de R$ 4 trilhões foi alcançado após 341 dias. No ano seguinte, o mesmo valor apareceu em 315 dias. Já em 2025, o marco foi atingido em apenas 296 dias, o menor intervalo da série histórica.
Para a CACB, esse encurtamento do prazo revela perda de previsibilidade fiscal. Segundo o coordenador do Gasto Brasil e consultor da entidade, Cláudio Queiroz, a repetição de recordes consecutivos indica dificuldades no controle das contas públicas. Como consequência, o desequilíbrio fiscal tende a se intensificar ao longo do tempo.
Arrecadação abaixo das despesas amplia a pressão fiscal
Enquanto os gastos crescem, a arrecadação não acompanha o mesmo ritmo. Dados do Impostômetro, ferramenta da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), apontam que o governo central deve fechar 2025 com cerca de R$ 4 trilhões em receitas tributárias. Esse cálculo reúne a arrecadação das três esferas federativas.
Diante dessa diferença, o setor público busca alternativas para financiar o déficit. Em geral, estados e municípios recorrem a repasses da União. Ao mesmo tempo, o governo federal amplia a emissão de títulos da dívida pública, que funcionam como empréstimos junto a investidores para viabilizar o pagamento das despesas correntes.
Efeitos econômicos: estímulo, inflação e juros
O aumento dos gastos públicos estimula a atividade econômica. Esse movimento impulsiona o consumo, amplia a renda e sustenta o mercado de trabalho. A taxa de desemprego em 5,4%, a menor já registrada no país, reflete parte desse efeito.
No entanto, o crescimento contínuo das despesas também pressiona os preços. Com a inflação mais elevada, o poder de compra diminui, sobretudo entre as famílias de menor renda. Diante desse cenário, o Banco Central tende a restringir o crédito. Para isso, eleva a taxa Selic, hoje no nível mais alto das últimas duas décadas.
Custo Brasil agrava o ambiente econômico
Além do quadro fiscal, entraves estruturais seguem limitando o crescimento do país. O chamado Custo Brasil reúne burocracia excessiva, insegurança regulatória, gargalos logísticos e falhas de infraestrutura. Esses fatores encarecem a produção e reduzem a competitividade das empresas.
Segundo o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, parte desses custos passa despercebida pelo consumidor. Um exemplo aparece nos encargos embutidos na energia elétrica, que afetam toda a cadeia produtiva.
De acordo com Roscoe, menos de 30% da energia consumida no país se refere ao uso doméstico. A maior parcela está incorporada aos bens e serviços adquiridos pela população. Nesse processo, cerca de 50% do valor pago corresponde a encargos governamentais, enquanto o restante cobre o custo efetivo da energia.
Esses encargos financiam políticas públicas, como subsídios e programas sociais, incluindo a tarifa social de energia. Embora reconheça a importância dessas iniciativas, Roscoe defende maior transparência. Para ele, o financiamento deveria ocorrer via sistema tributário, e não por meio de cobranças setoriais diluídas nos preços.
Monitoramento e reformas como caminho
Para a CACB, acompanhar a evolução das despesas públicas é fundamental para reduzir o impacto do Custo Brasil. A entidade utiliza o painel Gasto Brasil como ferramenta de fiscalização e transparência. Além disso, defende reformas estruturais, como a administrativa e a atualização do Simples Nacional.
Estimativas indicam que o Custo Brasil pode representar 20% do PIB ou mais. Esse peso compromete a produtividade, limita o empreendedorismo e dificulta um crescimento econômico sustentável no longo prazo.






























