A liquidação do Banco Master, decretada pelo Banco Central (BC), abriu um dos maiores processos de ressarcimento já administrados pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A entidade estima pagar R$ 41 bilhões a aproximadamente 1,6 milhão de credores, o que representa cerca de um terço de seus recursos líquidos. O episódio ocorre enquanto uma investigação da Polícia Federal (PF) aponta fraudes bilionárias, documentos falsos e operações inconsistentes realizadas entre o Master e o Banco de Brasília (BRB).
FGC prepara pagamentos e reforça alerta sobre golpes
Após a liquidação, o FGC iniciou o protocolo para liberar as garantias. O repasse será efetuado assim que o liquidante encaminhar a relação completa dos credores, o que costuma ocorrer em até 30 dias. A cobertura segue o limite de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, respeitando o teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos.
Além disso, o fundo reforçou um alerta sobre golpes. Segundo o órgão, já circulam anúncios que oferecem “adiantamento” ou “negociação” dos valores assegurados. Em muitos casos, os golpistas solicitam informações sensíveis, como saldos, corretoras e dados pessoais. O FGC afirma que não cobra taxas, não autoriza intermediários e não reconhece empresas capazes de representar investidores nesse processo.
Recursos bloqueados e impossibilidade de movimentação
Com a liquidação extrajudicial, todos os valores aplicados no Banco Master — sobretudo em CDBs — foram automaticamente bloqueados. Portanto, nenhuma corretora pode movimentar ou transferir esses recursos, e nenhum terceiro tem autorização para recuperá-los. O pagamento ocorrerá exclusivamente via FGC, mediante identificação do titular.
Fraude de R$ 12,2 bilhões: investigações revelam operações falsas
A Operação Compliance Zero, deflagrada pela PF na terça (18), prendeu Daniel Vorcaro, controlador do Master, e afastou Paulo Henrique Costa, presidente do BRB. Conforme as investigações, o Master teria vendido ao BRB carteiras de crédito inexistentes, o que gerou transferências de R$ 12,2 bilhões no primeiro semestre de 2025.
Além disso, documentos enviados ao BC estavam datados como se fossem de 2024, mas continham assinaturas eletrônicas de 2025 — período em que o Banco Central solicitou esclarecimentos sobre a operação. A PF identificou ainda o uso de duas associações ligadas a ex-funcionários do Master para simular carteiras de consignado.
Mesmo após o BC determinar o desfazimento das operações, o BRB continuou enviando recursos ao Master. Por isso, os investigadores concluíram que os crimes permaneciam em curso, o que justificou as prisões preventivas.
Liquidação se estende a outras empresas do grupo
Além do Banco Master, foram liquidados o Master Banco de Investimento, o Letsbank e a Master Corretora de Câmbio. A decisão tornou indisponíveis os bens dos controladores e ex-administradores, como Vorcaro, Armando Miguel Gallo Neto e Felipe Wallace Simonsen.
FGC: três décadas de atuação em crises bancárias
Desde sua criação, em 1995, o FGC atuou em cerca de 40 processos de intervenção. Entre os episódios mais relevantes estão:
- Bamerindus (1997)
- Banco Santos (2004)
- PanAmericano (2010)
- Cruzeiro do Sul e BVA (2012)
- Portocred, BRK Financeira e CHB (2021–2023)
Apesar dessa trajetória, a liquidação do Master representa um dos maiores desembolsos da história do fundo. Ainda assim, o FGC afirma que tem capacidade para honrar todos os pagamentos.
Crescimento acelerado e riscos elevados antecederam a crise
Antes da liquidação, o Master cresceu oferecendo CDBs com taxas acima do mercado, lastreados em precatórios e outros ativos complexos. Entretanto, o modelo elevava sua exposição ao risco e ampliava vulnerabilidades. Além disso, o banco enfrentava problemas de governança e liquidez, especialmente após o BC reprovar sua fusão com o BRB, em setembro.
Especialistas afirmam que o caso reforça dois pontos recorrentes do sistema financeiro:
- Risco moral: quando instituições assumem riscos excessivos pela existência da garantia do FGC.
- Assimetria de informação: quando investidores não têm acesso à real qualidade dos ativos.
Nova regulação busca limitar alavancagens a partir de 2026
Para reduzir vulnerabilidades, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou regras que entrarão em vigor em junho de 2026. Entre elas:
- limite de alavancagem: bancos com ativos acima de dez vezes o patrimônio deverão direcionar o excedente para títulos públicos;
- aumento da contribuição ao FGC: taxa extra passa de 0,01% para 0,02% ao mês.
Segundo o BC, as medidas ajudam a diminuir riscos sistêmicos e fortalecer o próprio FGC.
Reequilíbrio do FGC começa após pagamento das garantias
Depois do desembolso de R$ 41 bilhões, o FGC iniciará um plano de recomposição de caixa, previsto para 2026. A proposta inclui antecipar contribuições mensais feitas pelos bancos por até cinco anos, garantindo maior estabilidade para eventuais crises futuras.
Desafio atual: proteger investidores sem incentivar riscos
Trinta anos após sua criação, o FGC continua cumprindo seu papel de evitar corridas bancárias e proteger pequenos investidores. Contudo, o caso do Master mostra que o desafio atual vai além da compensação financeira: é preciso impedir que a percepção de segurança incentive práticas que elevem o risco sistêmico.
A liquidação do Master, somada ao envolvimento do BRB e aos indícios de fraude, evidencia a necessidade de fortalecer mecanismos de supervisão e transparência para preservar a confiança no sistema financeiro.






























