O forte ingresso de capital estrangeiro levou o Ibovespa ao melhor desempenho para um mês de janeiro em quase duas décadas. O movimento ocorreu em meio à realocação global de investimentos e à maior busca por mercados emergentes. Como resultado, o principal índice da Bolsa brasileira avançou 12,56% em janeiro de 2026, segundo dados da B3.
Ao longo do mês, o Ibovespa registrou oito recordes nominais. Apesar disso, as últimas sessões mostraram menor intensidade nos ganhos. Ainda assim, o desempenho consolidou janeiro como o melhor mês desde 2006, quando a valorização foi de 14,55%.
Na sexta-feira (30), último pregão do mês, o índice encerrou aos 181.363 pontos. Com isso, superou levemente o resultado de novembro de 2023, que havia registrado alta de 12,54%. Além disso, marcou o melhor desempenho mensal desde novembro de 2020.
Entrada de capital estrangeiro explica a alta
O principal fator por trás da valorização foi o fluxo estrangeiro no Ibovespa. Até o dia 28, o ingresso líquido de recursos somava cerca de R$ 23 bilhões, conforme estimativas de mercado. Esse movimento refletiu mudanças no cenário internacional.
Nos últimos meses, investidores globais passaram a reduzir a exposição a ativos dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, buscaram maior diversificação geográfica. Nesse contexto, mercados emergentes ganharam destaque, incluindo o Brasil.
Segundo gestores, essa realocação ocorre porque o mercado acionário norte-americano representa cerca de metade do valor global das ações. Portanto, qualquer ajuste de portfólio tende a gerar impactos relevantes em outros países.
Mudança no Fed gera volatilidade no fim do mês
Apesar do desempenho positivo, o encerramento de janeiro foi marcado por queda nos ativos brasileiros. Isso ocorreu após o anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a indicação de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve (Fed), a partir de maio.
Warsh, ex-diretor do banco central americano, é visto como mais cauteloso em relação a estímulos monetários. Por esse motivo, parte do mercado interpretou a indicação como um sinal de política monetária mais restritiva no curto prazo.
Como consequência, as expectativas de juros nos Estados Unidos foram revisadas. Isso aumentou temporariamente a atratividade dos ativos americanos. Ao mesmo tempo, reduziu o apetite por mercados emergentes no fim do mês.
Analistas mantêm visão construtiva para o Brasil
Mesmo diante da volatilidade recente, analistas seguem avaliando que o Brasil permanece bem posicionado. Para Thiago Calestine, economista e sócio da Dom Investimentos, um Fed mais firme no combate à inflação pode beneficiar o país no médio prazo.
Segundo ele, esse cenário tende a ampliar o diferencial entre os juros brasileiros e americanos. Dessa forma, aumenta a atratividade do chamado carry trade, estratégia em que investidores se beneficiam ao aplicar recursos em países com juros mais elevados.
“O investidor estrangeiro passa a ganhar mais apenas por manter ativos em real. Assim, o Brasil se torna mais atrativo”, afirma Calestine.
Rotação global segue favorecendo emergentes
Na avaliação da XP, a rotação de investimentos dos Estados Unidos para mercados emergentes deve continuar. Esse movimento deve se estender pelos próximos trimestres. Entre os fatores estão a desvalorização estrutural do dólar e o risco-retorno mais esticado das ações americanas.
Além disso, a demanda por ativos reais segue sustentada. Esse tipo de ativo tende a se beneficiar em ambientes de inflação tolerada pelas autoridades monetárias. Nesse cenário, o Brasil aparece como um dos principais beneficiários.
O país combina avaliações atrativas, forte exposição a commodities e expectativa de continuidade do ciclo doméstico de afrouxamento monetário. Esses fatores, juntos, reforçam o interesse dos investidores.
América Latina ganha destaque entre investidores
O Bradesco BBI avalia que a América Latina atravessa um momento favorável. Além da entrada de capital estrangeiro, os fundamentos econômicos da região mostram sinais de melhora. Ainda assim, esse movimento segue subestimado por parte do mercado.
Segundo o banco, os fluxos para fundos da região estão aumentando e se diversificando. Ao mesmo tempo, as alocações seguem abaixo da média histórica. Por isso, pequenas mudanças podem gerar impactos relevantes.
A região se destaca por apresentar baixas avaliações, maior peso do setor de commodities e menor exposição à tecnologia. Além disso, oferece maior retorno cambial e menor tamanho relativo no mercado global de ações.
Brasil lidera preferências, mas riscos permanecem
Nesse ambiente, o Brasil aparece como principal escolha do Bradesco BBI. O país se beneficia da flexibilidade da política monetária, de descontos em ações e câmbio e do fluxo consistente de investimentos. Chile e Argentina também figuram entre as preferências, por motivos distintos.
Apesar do cenário construtivo, alguns riscos seguem no radar. Entre eles estão um fortalecimento do dólar, juros reais mais altos nos Estados Unidos por mais tempo e episódios globais de aversão ao risco.
No plano doméstico, ruídos fiscais ou deterioração da política econômica também podem afetar o fluxo de capital. Portanto, o acompanhamento desses fatores segue essencial para os próximos meses.





























