A reestruturação da Raízen entrou em uma nova fase após a apresentação de uma proposta alternativa da Shell que prevê maior aporte de capital e descarta a divisão da companhia. A iniciativa busca reduzir o endividamento elevado e estabilizar a estrutura financeira do grupo de energia e bioenergia.
A proposta, revelada pelo Valor Econômico, surge enquanto os controladores analisam caminhos para enfrentar a pressão financeira crescente. Atualmente, a empresa pertence majoritariamente à Cosan e à Shell, que possuem participações equivalentes, enquanto o restante das ações circula no mercado.
O debate se intensificou porque a dívida da companhia alcançou R$ 55,3 bilhões no último trimestre. Além disso, rebaixamentos de classificação de risco e resultados negativos ampliaram a necessidade de reforço de capital.
Reestruturação da Raízen ganha alternativa com maior capitalização
A nova proposta apresentada pela Shell prevê capitalização aproximada de R$ 5 bilhões. Desse total, a petroleira contribuiria com cerca de R$ 3,5 bilhões, enquanto a Cosan aportaria o valor restante.
Com isso, os controladores pretendem fortalecer o caixa de forma direta. Ao mesmo tempo, buscam evitar a cisão da companhia em duas empresas independentes — modelo previsto em um plano anterior.
Inicialmente, a proposta original incluía a divisão entre operações de açúcar e etanol e o segmento de combustíveis. Ademais, previa a conversão de parte da dívida em ações e a entrada de investidores institucionais. Entre eles estariam fundos ligados ao BTG Pactual, com investimento estimado em R$ 5,3 bilhões via private equity — modalidade em que fundos aplicam recursos diretamente em empresas com potencial de crescimento.
Agora, a alternativa defendida pela Shell prioriza simplicidade operacional. Portanto, concentra o esforço na injeção direta de recursos, sem mudanças estruturais profundas.
Venda de ativos e metas de redução da dívida
Paralelamente às negociações, a companhia mantém um programa de venda de ativos para reduzir a alavancagem financeira — indicador que mede a relação entre dívida e geração de caixa.
Nos últimos 12 meses, a empresa arrecadou cerca de R$ 5 bilhões com desinvestimentos. Além disso, negocia a venda de operações na Argentina, cuja conclusão deve ocorrer até o fim do ano.
A meta consiste em reduzir a alavancagem para um intervalo entre duas e duas vezes e meia o resultado operacional anual. Segundo estimativas do UBS BB, a empresa precisaria de reforço total entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões para alcançar esse patamar.
Assim, a alienação de ativos ajuda, mas não resolve o problema estrutural de endividamento.
Resultados negativos aceleram a reestruturação da Raízen
A urgência da reestruturação da Raízen também reflete o desempenho recente da companhia. A empresa registrou impairment de R$ 11 bilhões — ajuste contábil que reduz o valor de ativos quando se conclui que eles perderam valor econômico.
Ademais, o prejuízo líquido atingiu R$ 15,65 bilhões no terceiro trimestre da safra 2025/2026. O resultado refletiu aumento do custo financeiro, mudanças nas condições de mercado e revisão das expectativas de retorno de investimentos.
Durante teleconferência com analistas, o CEO Nelson Gomes afirmou que apenas a transformação operacional não basta para restabelecer o equilíbrio financeiro. Segundo ele, a empresa chegou a um ponto de inflexão que exige medidas estruturais adicionais.
Próximos passos e impacto para investidores
A decisão sobre o modelo definitivo de capitalização deve influenciar diretamente o futuro financeiro da companhia. Se os controladores adotarem a proposta de aporte ampliado, poderão reforçar o caixa mais rapidamente.
Além disso, a empresa poderá recorrer ao mercado por meio de oferta subsequente de ações, conhecida como follow-on — operação em que a companhia emite novos papéis para captar recursos adicionais.
No plano anterior, o empresário Rubens Ometto também participaria do reforço de capital. Entretanto, a alternativa atual reduz a complexidade do processo e preserva a estrutura societária existente.
A empresa informou que não comentará o tema neste momento. A Shell também não se manifestou até o fechamento desta reportagem.
Diante desse cenário, a definição do modelo de capitalização será decisiva para determinar a velocidade da recuperação financeira e o posicionamento da companhia no mercado de energia e bioenergia.





























