O Santander Brasil avalia que a inadimplência permanece pressionada em alguns segmentos da economia e admite rever sua estratégia de crédito para a baixa renda em 2026. A sinalização foi feita nessa quarta-feira (4) pelo presidente-executivo do banco, Mario Leão, durante a divulgação dos resultados do quarto trimestre do ano passado.
Segundo o executivo, o banco pretende adotar uma estratégia seletiva e técnica de crescimento do crédito. Nesse contexto, a expansão deve ocorrer de forma mais intensa em segmentos considerados mais resilientes, como o de alta renda. Por outro lado, a carteira voltada à baixa renda pode registrar retração nominal.
A decisão ocorre em um cenário de juros elevados por período prolongado. Como consequência, a capacidade de pagamento de famílias e empresas mais sensíveis ao crédito segue comprometida.
No quarto trimestre, a carteira de crédito do Santander Brasil atingiu R$ 708 bilhões. O volume representa crescimento de 3,7% em relação ao ano anterior e de 2,8% frente ao trimestre imediatamente anterior. Ainda assim, o banco reforçou que a prioridade será a qualidade dos ativos, e não apenas a expansão do volume concedido.
Santander Brasil inadimplência segue pressionada em setores específicos
De acordo com Mario Leão, a perspectiva para alguns portfólios é mais favorável em 2026 do que em 2025. Contudo, determinados segmentos continuam sob pressão. Entre eles estão o agronegócio, as pequenas e médias empresas e as pessoas físicas de menor renda.
Esses grupos, segundo o banco, são mais impactados pelo atual patamar da taxa básica de juros. Por isso, exigem uma condução mais cautelosa da política de crédito.
O índice de inadimplência acima de 90 dias alcançou 3,7% no quarto trimestre. O número supera os 3,2% registrados no mesmo período do ano anterior. Além disso, ficou acima dos 3,4% observados no terceiro trimestre. O indicador mede atrasos mais longos no pagamento de empréstimos.
Apesar disso, Leão evitou indicar quando ocorrerá uma inflexão mais clara nesses segmentos. Segundo ele, mesmo com expectativa de queda da Selic em 2026, os juros devem permanecer elevados. Ainda assim, mesmo em 2027, a taxa pode continuar em dois dígitos.
Mercado reage com cautela aos resultados do banco
No mercado financeiro, o desempenho das ações refletiu esse cenário de prudência. As units do Santander recuavam 1,36%, cotadas a R$ 35,45, em um pregão negativo para o setor bancário.
Enquanto isso, investidores aguardam a divulgação dos resultados de outros grandes bancos. Entre eles estão Itaú Unibanco, Bradesco e Banco do Brasil. Esse movimento contribui para a volatilidade das ações do setor.
Analistas do Citi destacaram que a qualidade dos ativos segue como um dos principais desafios da instituição. A avaliação vale tanto para a carteira de pessoas físicas quanto para a de empresas.
Em relatório, o Citi apontou alta da inadimplência em diferentes faixas de atraso. Ademais, observou crescimento das renegociações como proporção da carteira. Por sua vez, as recuperações e os níveis de cobertura recuaram na comparação trimestral.
Ainda segundo o banco, os ganhos de eficiência operacional ficaram abaixo das expectativas no período. Mesmo assim, o Citi considera que as receitas e a rentabilidade do Santander permanecem relativamente estáveis. No curto prazo, porém, a postura cautelosa pode limitar avanços mais expressivos no retorno sobre o patrimônio.
O retorno sobre o patrimônio médio (ROAE) do Santander Brasil ficou em 17,6% no quarto trimestre. O indicador apresentou leve queda em relação ao mesmo período do ano anterior. Em comparação com o trimestre imediatamente anterior, manteve-se estável.
Mercado de capitais e discussões sobre o Fundo Garantidor de Créditos
Apesar do ambiente desafiador para o crédito, o presidente do Santander avalia que o início de 2026 foi positivo para o mercado de capitais. Em especial, houve melhor desempenho da renda variável.
Segundo Leão, o cenário global passa por uma realocação relevante de portfólios. Nesse movimento, o Brasil pode se beneficiar, considerando seus fundamentos econômicos.
Além disso, o executivo vê espaço para a retomada de ofertas iniciais de ações (IPOs) ao longo do ano no mercado brasileiro.
Por fim, Leão afirmou que deve haver, nas próximas semanas, uma definição sobre a recapitalização do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O tema ganhou relevância após desembolsos ligados à liquidação do Banco Master pelo Banco Central no ano passado.
De acordo com ele, há diálogo frequente entre os bancos, o FGC e o regulador. Ainda assim, a decisão cabe às autoridades responsáveis. Para o executivo, o episódio reforça a necessidade de aperfeiçoar regras e mecanismos de supervisão, a fim de evitar situações semelhantes no futuro.





























