O seguro rural encerrou 2025 com 3,2 milhões de hectares segurados no Brasil, o pior resultado dos últimos dez anos. O desempenho ocorre em um cenário marcado pelo aumento dos eventos climáticos extremos, pela redução de recursos públicos e pela maior exposição do produtor rural a perdas financeiras. Os números refletem o alcance do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), principal política federal de estímulo à contratação de apólices agrícolas.
Eventos climáticos se intensificam e ampliam a vulnerabilidade do campo
Nos últimos anos, os desastres naturais passaram a ocorrer com maior frequência e intensidade no país. De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Desastres Naturais (Cemaden), os alertas cresceram de forma consistente a partir de 2020. Em 2023, foram contabilizados 2.505 alertas, enquanto 2024 registrou 3.620 ocorrências, o maior volume desde o início da série histórica, em 2011.
Como consequência, os impactos têm sido sentidos de forma direta pela população e pelo setor produtivo. Enchentes, secas prolongadas e ondas de calor vêm comprometendo safras, provocando perdas econômicas e afetando cadeias inteiras de produção. Situações recentes no Rio Grande do Sul e no Amazonas exemplificam esse cenário.
Cobertura do seguro rural recua apesar do aumento dos riscos
Embora o ambiente climático seja cada vez mais instável, a área protegida pelo seguro rural apresentou forte retração em 2025. Ao longo do ano, foram segurados 3,2 milhões de hectares, uma queda de 54,8% em relação a 2024, quando 7,09 milhões de hectares estavam cobertos.
Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a redução limita a capacidade de o produtor mitigar riscos e preservar renda. Conforme explica Bruno Lucchi, diretor técnico da entidade, a área segurada representava cerca de 30% do potencial produtivo em 2021. Atualmente, porém, a estimativa é que esse percentual fique próximo de 5%.
Nesse contexto, o seguro rural funciona como um mecanismo essencial de proteção financeira, pois permite indenização em casos de perdas provocadas por fenômenos climáticos ou outros eventos previstos em contrato.
Corte de recursos compromete o desempenho do PSR
A retração da cobertura está diretamente relacionada à diminuição dos recursos destinados ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). O programa subsidia parte do valor das apólices, tornando o seguro mais acessível ao produtor.
No entanto, na Lei Orçamentária Anual (LOA) recentemente sancionada, foram reservados R$ 1,01 bilhão para o PSR em 2026. Esse montante é cerca de R$ 500 milhões inferior ao do ano anterior. O setor produtivo, por sua vez, havia solicitado R$ 4 bilhões, valor considerado necessário para ampliar a cobertura nacional.
Além disso, em 2025, o orçamento do programa já havia sofrido um corte expressivo para atender às metas fiscais do governo federal.
Veto presidencial amplia incertezas para o setor
Durante a tramitação do orçamento, o Congresso Nacional incluiu na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) um dispositivo que impedia o bloqueio dos recursos do PSR. Contudo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou o trecho, alegando a necessidade de preservar a flexibilidade da execução orçamentária.
Para entidades do setor agropecuário, a decisão aumenta a instabilidade do programa. Segundo Ágide Eduardo Meneguette, presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP), o corte compromete previsibilidade e segurança para quem enfrenta riscos climáticos e de mercado de forma permanente.
Parlamentares articulam reação ao veto
Diante desse cenário, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) iniciou articulações para derrubar o veto presidencial, mesmo durante o recesso legislativo. Na avaliação dos parlamentares, a retirada da proteção orçamentária eleva a incerteza sobre o financiamento do seguro rural, sobretudo em um momento de maior exposição do produtor a riscos climáticos e econômicos.
Os vetos devem ser analisados em sessão conjunta do Congresso Nacional, ainda sem data definida. Para que sejam derrubados, serão necessários 257 votos favoráveis na Câmara dos Deputados e 41 votos no Senado Federal.






























