O Ibovespa encerrou a sexta-feira (21) em baixa e registrou a primeira perda semanal desde o início de outubro, acompanhando o movimento global de aversão ao risco. Além disso, o dólar voltou a subir com força e ultrapassou os R$ 5,40, refletindo a reprecificação das expectativas para a política monetária dos Estados Unidos e o ajuste aos dados divulgados durante o feriado no Brasil.
O principal índice da Bolsa brasileira caiu 0,39%, aos 154.770 pontos, acumulando retração de 1,88% na semana — após cinco semanas seguidas de alta. O volume negociado foi de R$ 24,2 bilhões, em uma sessão marcada pelo vencimento de opções e pela maior volatilidade internacional.
Enquanto isso, o dólar à vista avançou 1,20%, para R$ 5,4020, somando valorização semanal de 1,97%. No mercado futuro, o contrato para dezembro subiu 1,42%, a R$ 5,4150.
Ajuste pós-feriado, dados dos EUA e novos ruídos políticos pressionam o câmbio
A moeda americana manteve trajetória de alta ao longo de todo o pregão. Isso ocorreu porque o mercado brasileiro ainda precisava reagir aos dados do mercado de trabalho dos Estados Unidos, publicados na quinta-feira, quando a Bolsa esteve fechada pelo Dia da Consciência Negra.
O relatório apontou a criação de 119 mil vagas em setembro, acima das projeções. Por outro lado, a taxa de desemprego avançou para 4,4%. Embora os números indiquem desaceleração gradual da economia, eles aumentaram a volatilidade nas moedas emergentes.
Ademais, o câmbio reagiu a ruídos políticos internos após a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, movimento que elevou a percepção de tensão entre Planalto e Senado.
Relações comerciais aliviam parcialmente o cenário
Mesmo com o ambiente carregado, o mercado acompanhou o decreto do presidente dos EUA, Donald Trump, que suspendeu tarifas de 40% sobre 238 produtos agrícolas brasileiros, incluindo café, carne bovina e frutas. A medida, retroativa a 13 de novembro, decorre de reunião entre Mauro Vieira e Marco Rubio, em Washington.
De acordo com o Goldman Sachs, os itens contemplados representam cerca de 10% das exportações brasileiras para os EUA. Entretanto, o Ministério da Indústria e Comércio afirmou que 22% das vendas ainda estão sujeitas às tarifas.
Wall Street avança, apesar da cautela com juros
Embora o clima no Brasil tenha sido negativo, os principais índices de Nova York fecharam o dia em alta:
- Dow Jones: +1,08%, aos 46.245 pontos
- S&P 500: +0,98%, aos 6.602 pontos
- Nasdaq: +0,88%, aos 22.273 pontos
O avanço ocorreu após novas declarações de dirigentes do Federal Reserve. John Williams, presidente do Fed de Nova York, afirmou que há espaço para um corte de juros no curto prazo. Além disso, Stephen Miran indicou que votaria por uma redução de 0,25 ponto percentual em dezembro, caso seu voto fosse decisivo.
Ainda assim, o comitê permanece dividido. Lorie Logan e Susan Collins demonstraram mais cautela. Como diversos indicadores seguem atrasados devido ao shutdown de 43 dias, a incerteza sobre a decisão de 10 de dezembro continua elevada.
Mesmo com a recuperação desta sexta-feira, os índices fecharam a semana no vermelho: cerca de –1% para Dow e S&P 500, e –2% para a Nasdaq.
Europa e Ásia ampliam tom defensivo
Os mercados internacionais reforçaram a leitura de cautela. Na Europa, o Stoxx 600 caiu 0,33%, no menor nível desde setembro e com o pior desempenho semanal desde julho.
Na Ásia, o pessimismo também prevaleceu:
- Nikkei: –2,40%
- Hang Seng: –2,38%
Destaques do Ibovespa: CVC despenca, Petrobras recua e varejo reage
Entre os destaques do pregão, a CVC (CVCB3) liderou as quedas do índice, recuando mais de 7% após quatro altas seguidas.
Ademais:
- Petrobras acompanhou a queda de 1,29% do petróleo Brent, influenciada pela possibilidade de cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia.
- Vale subiu 0,32%, apesar da baixa do minério de ferro na China.
- Bancos oscilaram sem direção única, em meio à preocupação com novos aportes ao FGC após a liquidação do Banco Master.
- Magazine Luiza e Azzas 2154 estiveram entre as maiores altas, impulsionadas pelo reposicionamento para a Black Friday.
- Ambev avançou 1,57%, recuperando parte das perdas recentes.
Ouro supera US$ 4 mil e se torna termômetro da crise monetária global
No exterior, o ouro voltou ao centro do debate ao atingir US$ 4 mil por onça, um recorde histórico. O movimento reflete o enfraquecimento da confiança nas moedas fiduciárias, pressionadas por dívidas públicas elevadas, juros reais reduzidos e balanços inflados de bancos centrais.
Segundo Lucas Collazo, da XP, o metal retomou seu papel de instrumento de soberania monetária. Entre 2022 e 2024, bancos centrais adquiriram mais de 3 mil toneladas de ouro, o maior volume desde 1971. Em 2025, China, Turquia e Polônia lideram as compras.
Apesar de sinais de superaquecimento — como a queda no consumo de joias —, fatores estruturais continuam impulsionando o metal: incerteza geopolítica, juros reais comprimidos e aumento da percepção de risco político, sobretudo nos EUA.
Hoje, ETFs globais de ouro já somam mais de US$ 230 bilhões, enquanto bancos centrais mantêm aquisições próximas de 1.000 toneladas por ano desde 2022.
Perspectivas para a próxima semana
O mercado brasileiro inicia a última semana de novembro atento a três pontos principais:
- O novo posicionamento do Fed, especialmente após as falas de Williams e o debate sobre o corte de dezembro.
- A divulgação dos dados atrasados dos EUA, que reduz a visibilidade do cenário macro.
- A evolução do câmbio, ainda pressionado pelos ruídos políticos e pela reprecificação global do risco.
Diante dos juros elevados nos Estados Unidos, da instabilidade política interna e da ausência de indicadores domésticos relevantes, a tendência é de que o mercado mantenha um viés defensivo.






























