O avanço da dívida pública e o crescimento das despesas dos estados continuam entre os principais desafios das contas públicas brasileiras em 2026. A avaliação consta na edição de fevereiro do Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF), divulgado pela Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão vinculado ao Senado Federal.
De acordo com o documento, o cenário fiscal deste ano não indica mudanças abruptas na condução da política econômica. Ainda assim, o governo deverá concentrar esforços no cumprimento da meta de déficit primário zero — resultado das contas públicas antes do pagamento dos juros da dívida.
Apesar desse objetivo, o relatório destaca que a trajetória da dívida pública segue como ponto de atenção para os próximos anos.
Dívida pública continua no radar da política fiscal
Segundo a IFI, interromper o crescimento da dívida pública exigiria um ajuste fiscal mais amplo do que o previsto para 2026. Para estabilizar o indicador e ampliar o espaço para investimentos públicos, o país precisaria registrar um superávit primário superior a 2% do Produto Interno Bruto (PIB).
Em termos práticos, isso significa que o governo teria de arrecadar mais do que gasta, desconsiderando os juros da dívida. Dessa forma, seria possível reduzir gradualmente o endividamento e liberar recursos para áreas como infraestrutura, ciência e tecnologia.
No entanto, a instituição avalia que reformas estruturais profundas dificilmente ocorrerão neste ano. Como 2026 é período eleitoral, mudanças relevantes nas regras fiscais tendem a enfrentar maior resistência política.
Por essa razão, medidas mais amplas de reorganização das despesas públicas devem ser discutidas apenas no próximo ciclo político.
Inflação e cenário externo mais favorável
No campo monetário, o relatório apresenta um cenário relativamente estável para 2026. A projeção é que a inflação encerre o ano em 3,9%, valor próximo ao centro da meta estabelecida pelo Banco Central do Brasil.
Além disso, o ambiente internacional é considerado relativamente confortável. Entre os fatores citados estão o regime de câmbio flutuante, o volume elevado de reservas internacionais do país e o desempenho positivo da balança comercial.
Esses elementos funcionam como mecanismos de proteção em momentos de instabilidade global. Assim, ajudam a reduzir pressões sobre o câmbio e sobre os preços internos.
Contas dos estados também geram alerta
Outro ponto destacado no relatório envolve o desempenho fiscal dos estados e do Distrito Federal. Em 2025, essas administrações registraram superávit primário equivalente a apenas 0,04% do PIB — resultado considerado praticamente neutro.
Esse desempenho ocorreu porque as despesas cresceram em ritmo superior ao das receitas. Como consequência, o espaço para investimentos e ajustes fiscais tornou-se mais limitado.
Embora o maior peso do ajuste recaia sobre o governo federal, estados e municípios também influenciam o equilíbrio das contas públicas. Portanto, o comportamento fiscal desses entes federativos permanece relevante para a trajetória da dívida pública.
O diretor da IFI, Alexandre Andrade, chama atenção para a evolução das despesas com pessoal. Segundo ele, esse tipo de gasto possui caráter obrigatório e tende a crescer ao longo do tempo.
Caso ocorra queda na arrecadação, os estados podem enfrentar dificuldades para manter o equilíbrio fiscal. Nesse cenário, investimentos públicos costumam ser uma das primeiras áreas afetadas, o que pode levar à interrupção ou atraso de obras.
Aumento do Imposto de Importação entra no debate fiscal
O relatório também analisa o aumento do Imposto de Importação sobre diversos bens de capital, informática e telecomunicações. A medida foi incorporada ao Orçamento federal de 2026 e tem como objetivo reforçar a arrecadação.
A estimativa da IFI é que a elevação das alíquotas gere receitas adicionais entre R$ 14 bilhões e R$ 20 bilhões ao longo do ano. Dessa maneira, o governo teria uma fonte relevante de recursos para auxiliar no cumprimento da meta fiscal.
Ao mesmo tempo, a proposta tem gerado discussões entre especialistas e representantes do setor produtivo. Parte das críticas se concentra nos possíveis efeitos sobre investimentos e competitividade da indústria nacional.
Diante dessas divergências, a IFI defende que o tema seja amplamente debatido entre governo, Congresso Nacional e setores produtivos antes de sua consolidação definitiva.





























