A aprovação do acordo Mercosul-União Europeia pelo Senado brasileiro abriu uma nova etapa nas relações comerciais entre os dois blocos. Após a decisão, empresários, parlamentares e representantes diplomáticos se reuniram em São Paulo para discutir os impactos do tratado e as oportunidades de acesso ao mercado europeu. O encontro ocorreu na sede da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e marcou o início das articulações para preparar empresas brasileiras — especialmente pequenas e médias — para competir no comércio internacional.
Fórum reúne empresários e autoridades para discutir implementação
O debate ocorreu durante o “Fórum de Integração Mercosul-UE: Liderança e Mobilização Nacional”. O evento reuniu representantes do setor produtivo e autoridades públicas para discutir a implementação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia.
Além disso, o encontro buscou mobilizar instituições empresariais para a nova fase do tratado. O objetivo, segundo os organizadores, é incentivar o setor produtivo a se preparar para ampliar as exportações.
De acordo com dados do governo federal, os dois blocos somam cerca de 718 milhões de consumidores e um Produto Interno Bruto conjunto estimado em US$ 22,4 trilhões. Portanto, o acordo figura entre os maiores tratados comerciais já negociados pelo Brasil.
O presidente eleito da ACSP e dirigente da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), Alfredo Cotait Neto, afirmou que a abertura de mercado exigirá maior preparação das empresas brasileiras.
Segundo ele, o acesso ao mercado europeu depende da adaptação a padrões internacionais de qualidade e sustentabilidade. Nesse sentido, as empresas precisam atender critérios de rastreabilidade de produtos, segurança alimentar e práticas ambientais alinhadas a acordos internacionais.
Competição internacional pode estimular reformas
O economista e cientista político Marcos Troyjo destacou que acordos comerciais de grande escala costumam gerar efeitos além do aumento do comércio exterior.
Segundo ele, a ampliação da competição internacional tende a incentivar reformas internas nos países participantes. Assim, governos e empresas precisam modernizar regras, processos produtivos e estruturas econômicas.
Ademais, a disputa em mercados mais exigentes pressiona os países a melhorar seu ambiente de negócios. Troyjo participou das negociações que levaram à conclusão do tratado entre os dois blocos.
Pequenas empresas podem ganhar espaço nas exportações
Apesar do potencial do acordo Mercosul-União Europeia, especialistas afirmam que o Brasil ainda precisa ampliar políticas de incentivo ao comércio exterior voltadas às pequenas empresas.
Cotait afirma que entidades empresariais podem desempenhar papel relevante nesse processo. Por exemplo, associações comerciais podem organizar programas de capacitação, missões empresariais e encontros com parceiros internacionais.
Além disso, essas iniciativas facilitam o contato entre empresas brasileiras e potenciais compradores europeus. Dessa forma, pequenas e médias companhias podem ampliar sua participação nas exportações.
O que prevê o acordo Mercosul-União Europeia
O acordo estabelece a redução gradual ou imediata de tarifas de importação para grande parte dos produtos comercializados entre os blocos.
Pelo texto aprovado:
- o Mercosul eliminará tarifas sobre 91% dos produtos europeus ao longo de até 15 anos;
- a União Europeia removerá tarifas sobre cerca de 95% das exportações do Mercosul em períodos que podem chegar a 12 anos.
Assim que o tratado entrar em vigor, diversos produtos industriais do Mercosul poderão acessar o mercado europeu com tarifa zero.
Entre eles estão:
- máquinas e equipamentos
- automóveis e autopeças
- produtos químicos
- aeronaves e equipamentos de transporte
No setor agrícola, o acordo prevê cotas com tarifas reduzidas para produtos como carne bovina, frango, arroz, açúcar, mel e etanol.
Ademais, o tratado estabelece regras ambientais e comerciais. Produtos associados a desmatamento ilegal, por exemplo, podem sofrer restrições.
Por outro lado, a União Europeia poderá reintroduzir tarifas temporárias caso as importações cresçam acima de determinados limites.
Outro ponto relevante envolve a participação de empresas do Mercosul em licitações públicas europeias. Dessa forma, companhias sul-americanas poderão disputar contratos em países da União Europeia.
Impactos ainda serão avaliados
A senadora Tereza Cristina afirmou que o acordo envolve concessões entre os blocos e que os efeitos completos dependerão da implementação.
Segundo ela, o tratado poderá gerar impactos em diversos setores da economia. Ainda assim, muitos resultados só aparecerão ao longo do tempo, conforme as regras comerciais entrarem em vigor.
Próximas etapas de tramitação
O tratado foi assinado em janeiro de 2026 e o governo federal enviou o texto ao Congresso Nacional na forma de projeto legislativo. Depois da aprovação nas duas casas, o documento segue agora para promulgação pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre.
Entre os países do Mercosul, Argentina, Uruguai e Brasil já ratificaram o acordo. Portanto, o bloco aguarda apenas a aprovação do Paraguai.
Na Europa, a Comissão Europeia anunciou a intenção de aplicar provisoriamente as regras comerciais antes da ratificação completa.
Entretanto, o Parlamento Europeu encaminhou o texto para análise da Corte de Justiça da União Europeia. O tribunal avaliará a legalidade do tratado, processo que pode levar até dois anos.
Além disso, alguns países europeus, como França, Hungria, Áustria e Irlanda, já manifestaram resistência ao acordo.
Mesmo assim, especialistas avaliam que o tratado poderá ampliar significativamente o fluxo comercial entre os dois blocos nas próximas décadas.





























