O avanço da produção de etanol de milho em Mato Grosso levou o governo estadual a concluir que a biomassa obtida por meio da supressão vegetal — retirada de vegetação nativa autorizada — não será suficiente para abastecer as usinas nos próximos anos. Diante desse cenário, a Secretaria de Meio Ambiente lançou um plano para ampliar a produção de biomassa de origem plantada, com horizonte até 2040.
A avaliação foi apresentada nesta semana pela secretária de Meio Ambiente, Mauren Lazzaretti, durante evento do setor. Segundo ela, a demanda crescente por combustível nas caldeiras das usinas — equipamentos que geram energia térmica para o processo industrial — já supera a capacidade atual de fornecimento baseada na remoção de vegetação nativa.
Crescimento do etanol pressiona oferta de biomassa em Mato Grosso
Mato Grosso lidera a produção nacional de etanol de milho e possui, atualmente, dez usinas em operação. Há ainda novos projetos em andamento, o que tende a ampliar a necessidade de biomassa nos próximos anos.
Hoje, parte relevante desse insumo energético vem da madeira originada da supressão vegetal, prática permitida pelo Código Florestal dentro de limites legais. No entanto, o aumento da demanda tem colocado em dúvida a sustentabilidade desse modelo no médio e longo prazo.
De acordo com a secretária, a própria dinâmica do setor indica que essa fonte não será capaz de sustentar a expansão industrial. “A supressão não irá suprir a demanda, nem a atual nem a crescente”, afirmou.
Debate ambiental envolve uso de madeira nativa
O uso de madeira nativa como fonte de energia tem gerado questionamentos. No ano passado, o Ministério Público abriu investigação para apurar possíveis irregularidades no consumo desse material por indústrias, incluindo usinas de etanol.
Em resposta, o governo estadual sustenta que não há ilegalidade nas práticas atuais. A interpretação da Procuradoria-Geral do Estado é de que a legislação vigente não restringe o uso desse tipo de biomassa por usinas de etanol.
Ainda assim, a própria gestão estadual reconhece limitações estratégicas nesse modelo. A dependência de madeira nativa, segundo Lazzaretti, não é sustentável para acompanhar o ritmo de crescimento do setor.
Plano prevê triplicar florestas plantadas até 2040
Para enfrentar o problema, o Estado lançou um plano que busca ampliar a área de florestas plantadas — especialmente com espécies como o eucalipto, utilizado para produção de biomassa — de cerca de 200 mil hectares para 700 mil hectares até 2040.
A proposta é estimular uma transição gradual para fontes consideradas mais previsíveis e controláveis do ponto de vista ambiental e produtivo. A madeira plantada, ao contrário da nativa, permite planejamento de longo prazo e reposição contínua.
Além disso, o plano prevê integração com programas de descarbonização, com a meta de reduzir progressivamente a dependência de supressão vegetal até 2035.
Transição busca garantir expansão industrial e sustentabilidade
Mesmo com cerca de 60% do território ainda preservado, o governo avalia que a disponibilidade futura de áreas passíveis de supressão será insuficiente para atender à indústria.
A estratégia, portanto, combina dois objetivos: garantir o crescimento do setor de etanol e reduzir a pressão sobre a vegetação nativa. Segundo a secretaria, há potencial para expandir o manejo florestal sustentável — uso controlado da floresta com reposição — e recuperar áreas degradadas para produção de biomassa.
A mudança, no entanto, dependerá de investimentos e da adesão do setor produtivo. Sem isso, o avanço das usinas pode enfrentar limitações de insumo energético nos próximos anos.




























