O próximo presidente da República deverá assumir um cenário fiscal marcado por déficits nas contas públicas, aumento da dívida pública e dificuldades para cumprir as metas previstas pelo arcabouço fiscal — conjunto de regras que limita o crescimento dos gastos do governo. A avaliação consta no Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) de junho, divulgado pela Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão vinculado ao Senado Federal.
O estudo apresenta projeções para a economia e as contas públicas entre 2026 e 2036. Segundo os diretores da IFI, Marcus Pestana e Alexandre Andrade, as estimativas foram elaboradas sem considerar futuras reformas estruturais.
Além disso, a instituição levou em conta fatores externos, como a alta do petróleo provocada pelos conflitos no Oriente Médio. O relatório também considera os efeitos da reforma tributária sobre o consumo. A expectativa é de ganhos de produtividade na economia, embora os maiores impactos ocorram sobre estados e municípios.
Crescimento da economia deve perder força
A IFI projeta crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2% em 2026 e de 1,8% em 2027. Depois disso, a economia deverá avançar, em média, 2,3% ao ano.
Em relação à inflação, a projeção é de 5% em 2026. Em seguida, o índice deverá cair para 4% em 2027 e 3,5% em 2028. Posteriormente, a tendência é de estabilização em torno de 3% ao ano.
Ao mesmo tempo, os juros devem permanecer elevados. A expectativa é que a taxa Selic recue gradualmente de 14% para 12% entre 2026 e 2027. No médio prazo, ela poderá se aproximar de 8%.
Receita cresce menos e despesas seguem em alta
Segundo a IFI, as receitas primárias líquidas deverão representar 18,9% do PIB em 2026. Já em 2027, o percentual deve cair para 18,7%. Nos anos seguintes, a tendência é de redução para aproximadamente 18,3%.
Além disso, o relatório prevê queda da elasticidade entre receita e PIB. Na prática, isso significa que o crescimento da economia deixará de gerar aumentos mais intensos na arrecadação do governo.
Por outro lado, as despesas primárias continuarão crescendo. A projeção indica alta de 19,2% do PIB em 2026 para 19,3% em 2027. Em 2032, elas poderão atingir 19,9% antes de se estabilizarem perto de 19,4%.
IFI prevê continuidade dos déficits fiscais
As projeções da IFI diferem das estimativas apresentadas pelo governo no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2027. A principal divergência está no comportamento do resultado primário e na possibilidade de cumprimento das metas do arcabouço fiscal.
De acordo com o estudo, o Brasil deverá continuar registrando déficits primários. Esse resultado ocorre quando as despesas superam as receitas antes do pagamento dos juros da dívida. Segundo a instituição, essa situação deverá persistir nos próximos anos.
Dívida pública deve ultrapassar 100% do PIB
Como consequência, a dívida pública seguirá em trajetória de crescimento.
O relatório estima que o endividamento bruto passe de 80,1% do PIB, registrado em abril de 2026, para 82,5% ainda neste ano. Em 2032, a relação entre dívida e PIB deverá superar 100%, alcançando 102%. Até 2036, a projeção chega a 115%.
Apesar de o cenário ter melhorado em relação às estimativas divulgadas em maio, Marcus Pestana e Alexandre Andrade afirmam que o avanço da dívida continua preocupando. Na avaliação dos diretores, essa trajetória pode comprometer a sustentabilidade das contas públicas no médio prazo.
Para estabilizar a dívida, a IFI calcula que seria necessário obter um superávit primário equivalente a 2,1% do PIB por ano. Em outras palavras, o governo precisaria arrecadar mais do que gasta, sem considerar os juros da dívida.
Equilíbrio fiscal continuará entre os principais desafios
Por fim, a IFI afirma que o relatório tem caráter técnico, independente e apartidário. O objetivo é contribuir para o debate sobre o equilíbrio das contas públicas.
Assim, a instituição conclui que o controle da dívida e o cumprimento das regras fiscais deverão permanecer entre os principais desafios econômicos do próximo governo.





























