A recuperação judicial da Casas Bahia pode provocar perdas para seguradoras de crédito comercial e fornecedores. Além disso, o processo pode aumentar a cautela de empresas e instituições financeiras na concessão de crédito ao varejo brasileiro. O pedido foi apresentado neste mês, após a companhia registrar prejuízo de R$ 10 bilhões no segundo trimestre, ante R$ 555 milhões no mesmo período do ano anterior.
Documentos judiciais e a relação de credores mostram que a reestruturação envolve centenas de empresas. Entre elas estão bancos, fabricantes de eletroeletrônicos, fornecedores de bens de consumo e seguradoras. Dessa forma, a extensão da lista evidencia o alcance da Casas Bahia sobre a cadeia de fornecimento do setor.
A recuperação judicial é um processo usado por empresas com dificuldades financeiras para tentar reorganizar suas dívidas e continuar operando. Nesse procedimento, os credores participam das negociações previstas no plano de reestruturação.
Recuperação judicial da Casas Bahia pressiona seguradoras
As seguradoras de crédito comercial podem ser afetadas caso parte dos valores devidos aos fornecedores esteja protegida por apólices. Esse tipo de seguro cobre, dentro das condições contratadas, perdas provocadas pelo não pagamento de uma dívida.
Nesse cenário, os fornecedores podem acionar as seguradoras para tentar recuperar parte dos valores que deixarem de receber. Contudo, a dimensão dos recebíveis protegidos por seguro não pôde ser determinada apenas com base na relação de credores.
Segundo fontes do setor, pode haver exposição de seguradoras internacionais como Allianz Trade, Coface e Atradius. Ademais, podem estar envolvidas empresas com operações no mercado brasileiro, como AIG, Chubb, Avla e Cesce.
O eventual impacto sobre essas companhias dependerá, entre outros fatores, dos valores segurados e das condições das apólices. Também será relevante a capacidade de recuperação dos créditos durante a reestruturação da varejista.
Bancos e fabricantes estão entre os credores
A relação de credores mostra que instituições financeiras concentram alguns dos maiores créditos contra a Casas Bahia. O Digio, do Grupo Bradesco, aparece com cerca de R$ 2,6 bilhões. Na sequência, o Banco do Brasil tem aproximadamente R$ 2,4 bilhões a receber.
A gestora de investimentos Riza aparece depois, com créditos estimados em R$ 804 milhões. Além disso, a indústria possui participação relevante na lista.
A Whirlpool possui exposição de cerca de R$ 165 milhões. Também aparecem entre os credores fabricantes de eletrônicos como Samsung, LG Electronics, Electrolux, Apple, Lenovo e Hisense.
Assim, os efeitos da recuperação judicial não ficam restritos ao setor financeiro. A capacidade da Casas Bahia de honrar seus compromissos pode influenciar fornecedores que dependem dos pagamentos da varejista para manter o fluxo de suas próprias operações.
Caso Americanas aumenta cautela no mercado
O processo também traz à memória a recuperação judicial da Americanas, iniciada em 2023. Naquele caso, a varejista entrou em crise depois de revelar inconsistências contábeis superiores a R$ 20 bilhões, posteriormente estimadas em cerca de R$ 25 bilhões.
O episódio provocou perdas expressivas para fornecedores e seguradoras de crédito comercial. Segundo relatório da Atradius publicado em 2025, fornecedores da Americanas tinham aproximadamente US$ 740 milhões a receber. Ademais, os sinistros cobertos por seguros de crédito chegaram a cerca de US$ 370 milhões.
Sinistro é o evento previsto em uma apólice que gera direito à indenização, conforme as regras do contrato. No caso do seguro de crédito, isso pode ocorrer quando um comprador deixa de pagar uma dívida coberta.
A experiência da Americanas pode levar empresas a reavaliar os limites de crédito concedidos a varejistas. Limite de crédito é o valor máximo que uma empresa aceita expor a determinado cliente sem ampliar sua avaliação de risco.
Por isso, fontes da indústria avaliam que a reestruturação da Casas Bahia pode estimular uma revisão das condições de crédito em toda a cadeia de varejo e de bens de consumo.
Casas Bahia passou por mudança de controle
Fundada em 1952 pelo empresário polonês-brasileiro Samuel Klein, a Casas Bahia se consolidou como varejista de bens domésticos voltada principalmente a famílias de baixa e média renda.
Em 2025, a gestora Mapa Capital assumiu o controle da companhia por meio de uma operação que converteu parte da dívida em participação acionária. Mesmo assim, Michael Klein, filho do fundador, permaneceu como acionista minoritário.
A nova recuperação judicial ocorre, portanto, após uma reestruturação societária realizada no ano anterior. Agora, o processo coloca novamente em discussão a capacidade financeira da empresa e os impactos de suas dívidas sobre credores e parceiros comerciais.
Empresas não comentaram
Casas Bahia, Banco do Brasil, Chubb, Whirlpool, Atradius e Allianz Trade não quiseram comentar as possíveis exposições relacionadas ao processo.
Por sua vez, Coface, AIG, Avla, Cesce, Samsung, LG Electronics, Electrolux, Lenovo, Hisense, Banco Digio e Riza não responderam aos pedidos de comentário até a publicação da notícia.
*Com informações de Reuters.





























