O risco de seca na agricultura familiar atingiu níveis alto ou muito alto em 197 municípios brasileiros em setembro de 2026, segundo o mais recente balanço do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O cenário preocupa, sobretudo, as lavouras de milho e feijão cultivadas sem irrigação, em áreas onde a disponibilidade de água é essencial para o desenvolvimento das plantas.
Do total, 170 municípios foram classificados com risco alto de seca. Além disso, outros 27 entraram na faixa de risco muito alto. O Nordeste concentra a maior parte dos casos: são 131 municípios em nível alto e 26 em nível muito alto. Na sequência, aparecem o Norte, com 34 municípios em risco alto e um em risco muito alto, e o Centro-Oeste, com cinco localidades na faixa alta.
Risco de seca aumenta no Nordeste
O Nordeste é a região mais afetada pelo atual cenário. Ao todo, 157 municípios nordestinos estão nos níveis mais elevados de monitoramento. Por isso, as lavouras de milho e feijão cultivadas em áreas de sequeiro — ou seja, sem sistemas de irrigação — estão entre as mais vulneráveis.
Em comparação com o mesmo período de 2025, houve uma piora significativa entre as culturas iniciadas em julho. Naquele ano, apenas 32 municípios estavam classificados com risco alto e nenhum apresentava risco muito alto.
Já nas plantações iniciadas em agosto e setembro de 2026, o comportamento foi diferente em parte do país. Houve redução no número de municípios sob risco alto ou moderado nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste em relação ao ano anterior.
No entanto, o Norte apresentou uma situação mais grave. A região registrou aumento tanto da intensidade quanto do número de municípios afetados por secas moderadas e severas. O Amazonas se destaca nesse quadro.
Falta de chuva reduz potencial das lavouras
Os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que a falta de água já comprometeu o potencial produtivo de diferentes culturas. Os impactos atingem feijão-caupi, feijão-cores e milho em estados como Paraíba, Bahia, Piauí, Alagoas e Pernambuco.
Na Paraíba, por exemplo, a irregularidade e o baixo volume de chuvas prejudicaram a segunda safra de feijão-cores, feijão-caupi e milho no Sertão. Como resultado, muitas áreas apresentaram condições consideradas regulares ou ruins.
Na Bahia, por sua vez, a menor ocorrência de chuvas afetou as segunda e terceira safras de feijão-caupi e feijão-cores durante a fase reprodutiva das plantas. Além disso, a segunda safra de milho terminou com produtividade 38,5% abaixo da estimativa inicial.
Em Piauí e Pernambuco, a estiagem durante as fases reprodutivas também provocou perdas na produtividade média do feijão-caupi plantado mais tarde. Em Pernambuco, embora o milho tenha começado a apresentar boas condições, a redução das chuvas posteriormente limitou o rendimento final.
Alagoas e Sergipe enfrentam problemas semelhantes. No Sertão alagoano, a seca persistente reduziu o potencial produtivo do feijão-cores. Ao mesmo tempo, parte das lavouras de milho foi destinada à produção de silagem ou utilizada como pastagem.
Em Sergipe, a baixa ocorrência de chuvas em agosto encurtou o ciclo do milho e confirmou a expectativa de baixa produtividade.
Norte também registra agravamento
No Norte, o Amazonas apresentou dois municípios em situação de seca severa e outros 27 sob seca moderada em setembro. Além disso, Roraima registrou chuvas irregulares em junho e julho, o que afetou de forma significativa a terceira safra de milho.
Apesar de o Nordeste concentrar a maior quantidade de municípios em situação crítica, os dados mostram que a seca também produz efeitos relevantes em outras regiões.
Em Minas Gerais, por exemplo, a restrição hídrica levou a uma estimativa de produção de milho 9,4% inferior à registrada na safra anterior.
No Sul, Paraná e Rio Grande do Sul também enfrentaram falta de umidade no solo. Como consequência, houve comprometimento do vigor das plantas e da qualidade das lavouras de feijão-cores e feijão-preto.
Como o risco de seca é calculado
O monitoramento do Cemaden utiliza o Índice Integrado de Seca (IIS), indicador que reúne diferentes informações para avaliar a intensidade da estiagem e seus possíveis impactos.
Para isso, são considerados indicadores de chuva, como o SPI1, que mede a anormalidade da precipitação em determinado período, além da umidade do solo até 1 metro de profundidade e do Índice de Saúde da Vegetação (VHI).
Assim, o sistema consegue combinar informações sobre a disponibilidade de água e as condições das plantas. As classificações variam de níveis moderados até situações excepcionais, conforme a intensidade da seca e seus efeitos.
A fase do ciclo agrícola também é importante. Quando a estiagem ocorre no início do plantio, por exemplo, pode atrasar o calendário agrícola. Por outro lado, quando a falta de água acontece durante o desenvolvimento das plantas, o impacto tende a ser mais direto sobre a produção.
Dessa forma, a ocorrência de seca no meio do ciclo fenológico — período que corresponde às diferentes fases de desenvolvimento da planta — pode indicar perdas de produtividade ou até interrupção da colheita.
O cenário registrado em setembro reforça, portanto, a necessidade de acompanhar a evolução das chuvas e das condições do solo. Para a agricultura familiar, especialmente nas áreas de sequeiro, a regularidade da precipitação continua sendo um dos principais fatores para preservar o potencial das lavouras.





























