A guerra no Oriente Médio pode pressionar a inflação brasileira e reduzir o ritmo da atividade econômica nos próximos anos. Segundo o Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) nº 111, divulgado pela Instituição Fiscal Independente (IFI), a escalada do conflito pode acrescentar até 1 ponto percentual ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no biênio 2026-2027, com efeitos diretos sobre combustíveis, renda das famílias e crescimento do país.
O documento indica que a alta do petróleo, caso se mantenha acima de US$ 100 por barril, tende a provocar um choque de oferta — situação em que custos de produção sobem e reduzem o consumo e o investimento. Nesse cenário, o avanço dos preços não decorre de aumento da demanda, mas de encarecimento de insumos essenciais, como energia e transporte.
Cenários para a inflação com a guerra no Oriente Médio
A análise da IFI parte de duas trajetórias possíveis para o preço do petróleo tipo Brent, referência internacional. Ambas refletem impactos relevantes da guerra no Oriente Médio sobre a economia brasileira.
No cenário considerado de normalização, a expectativa é de que a tensão diminua gradualmente. Ainda assim, o barril permaneceria acima das projeções anteriores, com médias estimadas de US$ 86,90 em 2026 e US$ 74 em 2027. Mesmo com essa desaceleração, a defasagem entre os preços internos e externos exigiria um reajuste de cerca de 25% nos combustíveis nas refinarias.
Esse movimento teria efeito direto sobre o IPCA, com impacto adicional de 0,7 ponto percentual em 2026 e 0,2 ponto em 2027. O aumento nos combustíveis tende a se espalhar pela economia por meio do encarecimento do transporte e dos fretes, atingindo toda a cadeia produtiva.
No cenário mais adverso, a persistência da guerra e eventuais danos à produção no Oriente Médio manteriam os preços em trajetória de alta. O Brent poderia alcançar média de US$ 96,80 em 2026 e ultrapassar US$ 107 em 2027.
Nesse caso, o repasse ao consumidor seria mais intenso, com elevação estimada de até 40% nos combustíveis. O impacto sobre a inflação seria mais expressivo: 1 ponto percentual no IPCA em 2026 e mais 0,5 ponto no ano seguinte.
Impactos no consumo e na renda das famílias
De acordo com a IFI, há uma relação direta entre o preço do petróleo e a inflação brasileira. A cada aumento de 10% no valor do Brent, o IPCA tende a subir cerca de 0,2 ponto percentual.
Para mitigar esse efeito, o governo federal já adotou medidas como subsídios ao diesel e ao gás de cozinha, além da redução de tributos sobre combustíveis específicos. Essas ações buscam reduzir o impacto imediato no orçamento das famílias, especialmente das camadas de menor renda.
Ainda assim, o relatório aponta que o encarecimento da energia reduz o poder de compra e limita o consumo. Como consequência, há uma desaceleração da atividade econômica.
Crescimento do PIB e riscos macroeconômicos
Apesar do cenário inflacionário, a IFI manteve as projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 1,7% para 2026 e 2% para 2027. No entanto, o avanço esperado é considerado limitado, pois decorre principalmente do aumento dos preços — e não da expansão real da produção.
Embora o Brasil seja exportador de petróleo, os ganhos com a alta das commodities tendem a ser temporários. O aumento na arrecadação, impulsionado por royalties e dividendos, pode ser superado por efeitos negativos mais amplos sobre a economia.
O relatório destaca que o risco é assimétrico e inclinado para piora do cenário. A combinação de inflação elevada e crescimento fraco caracteriza um ambiente desafiador para a política econômica.
Juros elevados e desaceleração econômica
Para conter a inflação provocada pela guerra no Oriente Médio, o Banco Central pode ser levado a manter juros elevados por mais tempo. Essa estratégia busca controlar as expectativas de inflação, mas também restringe o crédito e reduz o consumo.
Na prática, esse aperto monetário tende a afetar diretamente a renda real das famílias e a atividade econômica. O resultado é um ambiente de menor crescimento, mesmo diante de ganhos pontuais no setor externo.




























