O pedido de abertura de capital (IPO) da Shein em Hong Kong trouxe novas informações sobre a estratégia da gigante chinesa de moda. Ao mesmo tempo, reacendeu o debate sobre os possíveis impactos para o varejo brasileiro. Embora a companhia mantenha vantagens competitivas ligadas à escala global, à eficiência da cadeia de suprimentos e aos preços baixos, analistas avaliam que mudanças tributárias em mercados importantes começam a limitar seu ritmo de expansão. Nesse cenário, empresas brasileiras listadas na B3 tendem a chegar mais preparadas para enfrentar a concorrência.
Relatórios divulgados pela XP Investimentos e pelo Bradesco BBI apontam que a Shein continua sendo uma concorrente relevante. No entanto, destacam que o ambiente de negócios se tornou mais desafiador. A avaliação é de que a empresa depende cada vez mais da eficiência operacional para sustentar seu crescimento, em vez de benefícios tributários que favoreceram sua expansão internacional nos últimos anos.
Segundo dados apresentados no prospecto do IPO, a Shein registrou vendas de US$ 41,8 bilhões em 2025. O resultado representou alta de 8% em relação ao ano anterior. Ainda assim, no primeiro trimestre de 2026, o crescimento desacelerou para 1%. O principal motivo foi a retração das vendas nos Estados Unidos, mercado responsável por cerca de um quarto da receita da companhia. No período, as vendas recuaram 14% após mudanças nas regras para importações de pequenos pacotes e a adoção de novas tarifas.
Modelo de negócios continua como diferencial
Apesar do ambiente mais restritivo, os analistas destacam que a Shein preserva características que sustentam sua competitividade. Entre elas, está a estrutura altamente integrada da cadeia de produção. Esse modelo permite desenvolver coleções em grande velocidade e responder rapidamente às mudanças de demanda.
A empresa utiliza o sistema Large Scale Automated Test and Reorder (LATR). A ferramenta testa pequenos lotes de produtos, acompanha o desempenho das vendas em tempo real e amplia a fabricação apenas dos itens com maior aceitação. Com isso, reduz estoques, melhora a eficiência operacional e acelera a renovação das coleções.
Além disso, o prospecto informa que a companhia trabalha com mais de 7,5 mil fornecedores. Também adiciona aproximadamente 4,7 mil novos produtos por dia ao catálogo. Para os analistas, essa capacidade de atualização constante continua sendo um dos principais diferenciais da plataforma.
Marketplace ganha espaço na estratégia
Outro movimento observado nos documentos do IPO é o avanço do marketplace. Nesse modelo, vendedores independentes comercializam produtos dentro da plataforma da Shein.
Segundo o Bradesco BBI, essa operação representava apenas 3% da receita em 2023. Já no primeiro trimestre de 2026, a participação chegou a 14%. Nas estimativas do banco, cerca de 45% do volume bruto de mercadorias (GMV, indicador que mede o valor total negociado na plataforma) já ocorre por meio desse formato.
Como consequência, a margem bruta da companhia aumentou. O indicador alcançou 68% em 2025 e superou 70% nos primeiros meses deste ano. Por outro lado, despesas com logística e marketing continuam pressionando os resultados. Dessa forma, parte do potencial de ganho operacional permanece limitada.
Mudanças tributárias alteram cenário internacional
Os documentos do IPO mostram que alterações nas regras tributárias passaram a influenciar diretamente a estratégia da empresa.
A XP observa que o fim da isenção para encomendas de baixo valor nos Estados Unidos obrigou a Shein a reajustar preços para preservar a rentabilidade. Como resultado, as vendas perderam ritmo naquele mercado.
Situação semelhante começou a ocorrer na Europa. O bloco passou a adotar novas cobranças sobre importações de baixo valor. Ademais, o próprio prospecto reconhece que mudanças nas legislações tributárias podem afetar de forma significativa o desempenho operacional da companhia. A expectativa apresentada pela empresa é que os impactos no mercado europeu sejam, pelo menos, comparáveis aos registrados nos Estados Unidos.
Como o IPO da Shein pode afetar o varejo brasileiro
Na avaliação da XP, as varejistas brasileiras entram nesse novo ciclo em posição mais sólida do que em anos anteriores. Os analistas apontam que empresas nacionais fortaleceram operações digitais, melhoraram o controle de estoques e preservaram margens consideradas saudáveis. Assim, ganharam maior capacidade de reação em um ambiente competitivo.
Por sua vez, o Bradesco BBI pondera que uma eventual captação bilionária no IPO pode ampliar o poder de investimento da Shein. Caso isso ocorra em um cenário de regras favoráveis para importações de baixo valor no Brasil, a pressão sobre o setor poderá aumentar.
Além disso, os analistas afirmam que Estados Unidos e Europa se tornaram mercados mais restritivos para operações transfronteiriças de comércio eletrônico. Diante desse cenário, países como o Brasil podem ganhar importância nos planos de expansão da companhia chinesa.
Empresas como Lojas Renner (LREN3), C&A (CEAB3), Riachuelo (RIAA3) e Azzas 2154 (AZZA3) tendem a continuar disputando consumidores em um ambiente competitivo, principalmente nas categorias de moda mais sensíveis ao preço. Por outro lado, a evolução operacional dessas varejistas, aliada ao fortalecimento dos canais digitais e ao maior controle dos estoques, reduziu parte da vantagem competitiva que impulsionou o crescimento das plataformas asiáticas nos últimos anos.





























