Os pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro caíram 20,7% no segundo trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior. A Serasa Experian contabilizou 448 solicitações entre abril e junho, ante 565 no segundo trimestre de 2025. Com isso, o indicador interrompeu uma sequência de três anos de alta nesse intervalo, segundo levantamento divulgado na segunda-feira (19).
Além disso, o resultado ficou 5,5% abaixo do registrado nos três primeiros meses de 2026, quando o levantamento identificou 474 pedidos. A queda, porém, não significa que o setor tenha superado suas dificuldades financeiras. Custos elevados, crédito mais seletivo e endividamento continuam pressionando produtores e empresas ligadas à cadeia agropecuária.
O estudo considera três grupos: produtores rurais que atuam como pessoas físicas, produtores organizados como pessoas jurídicas e empresas relacionadas ao agronegócio. Embora os três perfis tenham apresentado recuo nas solicitações, a Serasa Experian recomenda cautela na interpretação dos números.
Segundo a empresa, a redução pode refletir, ao menos em parte, a sazonalidade das receitas agropecuárias e o avanço das negociações entre devedores e credores. Por isso, os próximos trimestres serão importantes para avaliar se a tendência de queda vai se manter.
Produtores rurais pessoas físicas lideram os pedidos
Os produtores rurais que atuam como pessoas físicas concentraram o maior número de solicitações no segundo trimestre. Nesse grupo, o levantamento contabilizou 197 pedidos, uma queda de 10,5% em relação aos 220 registrados no mesmo período de 2025.
Mato Grosso liderou a lista estadual, com 49 solicitações. Em seguida, apareceram Goiás, com 46; Minas Gerais, com 23; São Paulo, com 22; e Paraná, com 16.
O levantamento também detalhou os pedidos por categoria de propriedade. A classificação de produtores sem propriedades reuniu 70 solicitações. Já os grandes proprietários somaram 51, enquanto os pequenos registraram 39 e os médios, 37.
Essa categoria de produtores sem propriedades pode incluir arrendatários e integrantes de grupos familiares ou econômicos. Portanto, os dados não se limitam a quem possui terras em seu nome.
Pedidos de empresas rurais recuam 34,2%
Entre os produtores rurais organizados como pessoas jurídicas, os pedidos caíram 34,2% na comparação anual. O levantamento registrou 160 solicitações no segundo trimestre de 2026, ante 243 no mesmo intervalo do ano passado.
Nesse grupo, o cultivo de soja respondeu por 70 pedidos, seguido pela pecuária bovina, com 28. A produção de cana-de-açúcar somou 15 solicitações, enquanto o cultivo de café registrou 13 e a produção de cereais, 12.
Mato Grosso também liderou entre as unidades da Federação, com 54 pedidos. São Paulo apareceu na sequência, com 28, seguido por Goiás, com 22; Minas Gerais, com 21; e Paraná, com 15.
Já as empresas ligadas à cadeia do agronegócio apresentaram uma queda menor. O grupo registrou 91 solicitações, redução de 10,8% em relação às 102 contabilizadas no segundo trimestre de 2025.
Os serviços de apoio à agropecuária concentraram 26 pedidos. Na sequência, vieram as empresas de processamento primário de produtos agropecuários, com 20, e o comércio atacadista de produtos agrícolas primários, com 18. Os revendedores de insumos agrícolas, exceto máquinas, somaram dez solicitações.
Mato Grosso concentra quase um quarto dos pedidos
Considerando os três perfis analisados, Mato Grosso reuniu 107 solicitações, o equivalente a 23,9% do total contabilizado no levantamento. Goiás ficou em segundo lugar, com 84 pedidos, ou 18,8%. São Paulo registrou 72, Minas Gerais somou 54 e Paraná, 42.
Além desses estados, Pará, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Mato Grosso do Sul e Tocantins completaram a lista das dez unidades da Federação com mais solicitações.
A recuperação judicial é um instrumento legal que permite a empresas e produtores elegíveis negociar a reorganização de suas dívidas, buscando manter suas atividades e cumprir um plano de pagamento. No entanto, o pedido não elimina automaticamente as obrigações financeiras nem garante a continuidade do negócio.
A Serasa Experian também ressalta que um mesmo processo judicial pode envolver pessoas ou empresas de mais de um dos perfis analisados. Por esse motivo, não se deve somar os números de cada grupo para calcular o total nacional, pois isso pode gerar dupla contagem.
Inteligência artificial ajuda a identificar riscos
Além de acompanhar os pedidos já apresentados à Justiça, a Serasa Experian utiliza modelos preditivos de inteligência artificial, como o Agro Score, para identificar sinais de deterioração financeira entre produtores rurais.
Segundo a empresa, a pontuação média do Agro Score de produtores pessoas físicas que posteriormente solicitaram recuperação judicial já era significativamente inferior à média da população rural em geral três anos antes do pedido.
Para Marcelo Pimenta, responsável pela área de agronegócio da Serasa Experian, a combinação de dados, inteligência artificial e modelos preditivos pode ajudar o mercado a identificar riscos com mais precisão. Dessa forma, instituições financeiras podem avaliar melhor os tomadores de crédito sem restringir os empréstimos de maneira indiscriminada.
O indicador da Serasa Experian reúne informações de processos judiciais trimestrais e dados de CPF e CNPJ relacionados aos pedidos divulgados pelos Tribunais de Justiça estaduais.
Apesar da queda observada no segundo trimestre de 2026, o cenário ainda exige atenção. A evolução do endividamento, o acesso ao crédito e a capacidade de renegociação das dívidas devem ajudar a determinar se a redução representa uma mudança mais duradoura ou apenas um alívio temporário para parte do agronegócio.





























